Trecho de um artigo do livro MOVING TOWARD STILLNESS, do Dave Lowry (que também escreveu In The Dojo, que em breve sairá em português).
Tradução – Jaqueline Sá Freire (Brazil Aikikai – Hikari Dojo – Rio de Janeiro)
“…O flexível bambu é uma metáfora tão familiar, tanto para o caminho marcial como para a vida diária, que é fácil esquecer que a maioria dos ocidentais que escrevem e falam sobre ele, e mesmo os que tentam compreendê-lo, na verdade nunca viram muitos bambus crescendo e vivendo na natureza…
… Eu decidi que era hora de podá-lo. Eu comecei cavando na base de uns brotos. E foi então que aprendi que há muito mais por trás da capacidade de flexibilidade do bambu do que podemos ver em seus ramos cobertos pela neve. O bambu se propaga por rizomas, raízes longas e fibrosas que se espalham horizontalmente por baixo da terra. Estas raízes se expandem e se entrelaçam, formando uma rede. Os rizomas são inacreditavelmente fortes…
…Como eu disse, o bambu flexível é uma imagem familiar que pode ser encontrada em todos os tipos de analogias por toda a Ásia. Mas a flexibilidade é apenas a metade da força do bambu. É verdade que os galhos do bambu são maleáveis. Eles podem dobrar em curvas incríveis sem quebrar. Mas sem as fortes e entrincheiradas raízes sob a terra, os ramos desabariam sem a menor resistência. As pessoas que conhecem apenas a flexibilidade e a maleabilidade desta planta especial não tem noção da força que torna a flexibilidade possível…
…. Essa lição sobre o bambu tem implicações importantes para o budoka… Ele logo descobriria que sua técnica não é capaz de agüentar a pressão de um ataque a menos que suas raízes estejam aprofundadas em uma arte bem estabelecida….
…. Eles poderiam compreender de forma mais plena a lição da força do bambu: a flexibilidade, a verdadeira maleabilidade que permite que ele se dobre e salte de volta contra a oposição é apenas uma ilusão, a menos que exista uma raiz firme e sólida que o apóie.”
Um desenho infantil que eu adoro é Mulan (1 e 2), o segundo fala exatamente sobre isso no começo. Mulan canta uma musiquinha que acho muito linda.
Terra, céu…
Dia e noite…
Som e silêncio…
Treva e luz…
Andam sempre dois a dois
Pra dar equilíbrio
Há inverno e há verão
É a primeira lição
Tem q ter a rigidez
Da raiz, da árvore
Lutar com ardor
Veloz, sem temor!
(vamos ter a rigidez
Da raiz, da árvore
Lutar com ardor
Velozes, sem temor!)
- Agora Mulan! eu tô pronta!
- Mas não encontrou o equilíbrio…ainda está na metade do caminho…
Tem que ter a brandura
Do bambu que aceita se curvar
Prosseguir confiante por saber
Que é normal enfraquecer
(vamos ter a brandura
Do bambu que aceita se curvar
Prosseguir confiantes por saber
Que é normal enfraquecer)
Andam sempre dois a dois
(andam sempre dois a dois)
Pra dar equilíbrio
(andam sempre dois a dois)
Há inverno e há verão
(há inverno e há verão)
(há inverno e há verão)
(há inverno e há verão)
É a primeira lição
(vamos ter a brandura)
(vamos ter a rigidez)
(do bambu que aceita se curvar)
(da raiz, da árvore)
(prosseguir confiantes por saber)
(lutar com ardor velozes, sem temor!)
(que é normal enfraquecer)
É a lição!!
(é a primeira lição!)
Para mim tudo isso fala sobre como devemos ser flexíveis dependendo da situação ou com quem lidamos, mas ao mesmo tempo temos que ter certeza da nossa opinião, ter uma boa base e não nos deixar levar.
No caso de um juiz, por exemplo, não é por que a mídia e o povo clama por uma decisão, que então o juiz deve mudar de opinião e deixar solto alguém que ele acha que deve ser preso, ou vice versa. Quem diz que esse mesmo réu que o juiz soltou por um “pedido” da mídia. Pode-se até pensar que depois de tomada a decisão o juiz não irá mais se “incomodar” com aquela pessoa, mas quem diz que aquele não será o homem que um dia pode estuprar sua filha ou matar sua mulher?
Tudo o que se faz tem uma volta, temos que saber como agir adequadamente em todas as situações, sendo flexíveis em algumas e fortes em outras.